quarta-feira, 12 de março de 2014

ENTRE A TRADIÇÃO E A HOMOSSEXUALIDADE CONTRA O LIBERALISMO

Opnião - Rafael Scovino Silva

O debate sobre a homossexualidade no mundo é com certeza um dos mais cheios de intolerância e equívocos da atualidade. De ambos os lados.
Eu particularmente sei muito bem oque critico no "mundo LGBT". A homossexualidade sempre existiu, agora o protótipo do "homossexual moderno" não; isso é fruto desta era tal como "a juventude moderna, a música moderna, a economia moderna, etc."
O conservadorismo vem partindo da crítica não da "homossexualidade moderna" e de seu comportamento que consideram "promíscuo" fruto da mentalidade liberal, mais da crítica a própia condição da homossexualidade partindo de duas premissas equivocadas : a de que a homossexualidade é uma construção cultural e não uma condição natural e de que existe somente um tipo, um meio de alguém se assumir como homossexual.
Aí se confunde. Se a homossexualidade fosse fruto de culturas libertárias como existiu em todas as culturas, em todos os tempos e com diferentes expressões ? Se analisa com anacronismo histórico a condição do comportamento do dito "homossexual moderno". E o mesmo vejo fazendo o movimento LGBT como se os homossexuais pela história tivessem os mesmos valores e anseios dos de nossos tempos e fosse tudo apenas o "culminar de uma luta histórica" e não fruto da cultura moderna e pós-moderna.
É impressionante também como muitos "machões" diagnosticam a homossexualidade como simples "fator cultural" se sequer homossexuais são para se autoconhecer e ter senso racional e de vivência para julgamento e como muitos que celebram a "diversidade" vem falar em "sexualidade mutável" contrariando o própio senso de diversidade e sua própia natureza e por fim também caindo no erro de designar a homossexualidade como fator cultural e não natural.
Lógico que há fatores culturais que incentivam ou reprimem a homossexualidade e os que inclusive geram confusões sobre o própio conceito de "sexualidade". Este último é o agente moderno.
Pessoas podem ter e/ou assumir "comportamentos homossexuais" sem serem homossexuais e estas precisam de ajuda no entender da própia sexualidade.

Assim como proibir ou reprimir a homossexualidade de nada impede nascerem homossexuais por fatores naturais e pior impede é o entendimento da questão e jogam a pessoa em uma crise existencial aonde só pode seguir dois caminhos auto-destrutivos : ou destruir sua identidade ou se afastar da identidade de seu grupo em busca de outra que o acolha e tente compreende-lo.
Assim, tornar a homossexualidade "um tabu" foi justo oque a "jogou nos braços" da cultura liberal, moderna e de modelo anglo-saxão.
A própia demanda, quando sincera, do "casamento gay" apesar de ser uma tentativa de "reformular o estilo tradicional de família" é justo uma tentativa desesperada de "busca da tradição", de estar incluído no mesmo "modelo tradicional de família".O homossexual que busca sinceramente o "casamento gay" é por si própio um romântico e só nisso é oposto ao modelo de "homossexual moderno" que prega o hedonismo e a multiplicidade de parceiros.
O erro perigoso aí vem da ignorância e não de sua convicção plena de "combater o modelo de família tradicional" pois a cultura liberal e em parte também a marxista o deram um conceito errado do que vem a ser "Tradição".Mais os primeiros a distorcer oque é tradição foram justo os conservadores...
Quando deturparam a hierarquia de diferentes funções complementares a "funções elevadas e funções subalternas", quando distorceram a tradição que é a melhor maneira de se adaptar social, cultural e territorialmente a determinado terreno e manter a coesão e a unidade do grupo em "conservar" uma ordem de privilégios e de exclusão...
Nada mais "anti-tradicional" que o conservadorismo cego ! O "conservadorismo liberal" está aí para prova-lo.
Enfim, quando os monarcas se tornaram tiranos, a tradição se perdeu.
Assim, o homossexual hoje pouco compreende que oque ele chama de "família tradicional" apesar de todas as corruptelas pelo machismo, pelo racismo e pelo elitismo não é uma simples "construção cultural fruto de uma mentalidade opressora" mais "a melhor maneira encontrada para perpetuar, proteger e acolher a humanidade em seus diversos póvos e expressões em determinados territórios".Assim combater a "família tradicional" é combater a própia organização de sobrevivência da humanidade ! É esse o perigo da questão do "casamento gay" e não o simples fato de uma minoria casar-se.
De outro modo não é o "casamento gay" que está "destruindo a família".
O própio machismo começou esta destruição do mesmo modo que transformou "o monarca em tirano" transformou o "cabeça da família no ditador da casa".
As causas recentes da "destruição da família" estão no desemprego estrutural, no emprego precário, do monopólio da renda e da produção nas mãos de poucos jogando os demais "ao relento". São condições materiais práticas que levaram a desestruturação familiar e a sua posterior contestação.
Mais houve sim um fator "cultural" que deu início a toda a "destruição da família", foi justo a separação da "família" do "núcleo maior" do grupo, da tribo, da nacionalidade, da humanidade em conjunto. Quando "a família" e não mais o "grupo identitário" teve que correr sozinha atrás de seu sustento e bem-estar tendo os demais como "competidores" e não como tradicionalmente "ajudadores" perdeu-se o sentido de coesão, de unidade. Seguida esta tendência sair da desestruturação do grupo para a da família era apenas questão de tempo e caminho inevitável.
Assim, o verdadeiro tradicionalista lutar contra a "destruição da família" no campo cultural sem combate-la no campo econômico, no material é tratar das consequências e não da causa, é como "enxugar gelo".

Assim voltando ao tema inicial tanto a criminalização da homossexualidade quanto o casamento gay no combate a "família tradicional" são erros crassos que aprofundam um problema muito maior que é a busca da harmonia da humanidade.
A homossexualidade assim está longe de ser anti-natural ou prejudicial a sociedade pois sempre fez parte desta, as condições de cada lugar e época é que diferem.
Do mesmo modo a homossexualidade é uma condição minoritária e por si só fora de um contexto da modernidade é inofensiva e não usada no mesmo patamar da heterossexualidade que é a condição amplamente majoritária.
A homossexualidade assim se apresenta na história como uma "condição minoritária e a certo ponto complementar as funções exercidas pela heterossexualidade e não sua inimiga".Não tendo como obrigatória a função da procriação, o homossexual pode ajudar "o mundo hétero" desde o cuidar das crianças, até nas artes e na própia reflexão espiritual !
Não tratamos aqui do "sentido teológico" de se a homossexualidade "é ou não pecado" mais de sua inserção real na história e lembremos que pela maioria dos textos religiosos nosso mundo é imperfeito e pecador desde "a queda do Éden". Então tenhamos se não aceitação, a compreensão da natureza da homossexualidade.
Na questão da homossexualidade é muito tolo tratar de atuar na natureza do ser humano, mais vital atuar no aspecto cultural ainda mais quando esta cultura vai contra o própio exercer sadio da sexualidade humana !
Nem castração, nem libertinagem são expressões saudáveis da sexualidade e isso para muito além do aspecto físico mais para o afetivo, o emocional e mesmo o transcedental.
Adotar uma ou outra postura por vezes por motivos religiosos vai muito da maneira da pessoa lidar com sua sexualidade e é um "caminho de poucos" e não o "padrão majoritário".

O mapa que ilustra este texto mostra diversas maneiras de se encarar a homossexualidade nos dias de hoje e vemos justo a polarização avançando nos extremos ou criminalizando ou a enaltecendo em combate ao "modelo tradicional de família".Não a toa, os dois caminhos equivocados e que se alimentam um a outro como "causa e efeito, ação e reação".
Mais observemos que na maioria dos países do mundo não há "legislação sobre o tema", oque óbvio não indica que nelas não existam homossexuais, apenas que a discussão não veio a tona seja pela exclusão dos homossexuais, seja por estarem a seu modo "adaptados e inseridos" nestas sociedades, muitos inclusive com parceiros morando sob o mesmo teto, mais não em confronto com o "modelo tradicional de família", tal qual reivindicações como o "casamento gay" os "parecerem alienígenas".Ao mesmo tempo precisam de "segurança jurídica" para terem garantidos no futuro direitos que hoje são garantidos apenas por "aspecto cultural" como herança, patrimônio e os de uma vida em comum em geral.
São justo destas nações que podem sair "linguagens diferentes" da velha e nociva dicotomia conservadores versus liberais para a questão da homossexualidade e da sexualidade em geral !

O tempo urge e é responsabilidade de todos encontrar meios de cada nação lidar com a homossexualidade, nem a invisibilizando, nem enaltecendo.
E óbvio que cada lugar deve ter seu própio modelo para tal pois ali se insere em determinado modo de viver fruto da adaptabilidade ao terreno e a coesão social.Oque não dá é manter a "coesão social" excluindo ou usando um determinado grupo para "fora ou além dela"; ainda mais um grupo que a história já mostrou poder ser extremamente positivo e complementar na coesão social !


Comparar ou confundir homossexualidade com pedofilia ou zoofilia é o mesmo que confundir heterossexualidade com os mesmos, ou também não há ali pedófilos e zoófilos ? A diferença é a maturidade afetiva e o livre arbítrio em relações de mútuo acordo com pessoas adultas que sabem muito bem oque estão fazendo e compreendem seus impulsos e desejos sabendo de seus prazeres,necessidades e de seus limites.

É hora de acordar e decidir se vamos tratar de aspectos culturais e aí possíveis de discussão e mudança ou se vamos tratar da natureza das pessoas, esta não importa se "proibida ou cultuada"-imutável e suas possibilidades de atuarem harmônica ou nocivamente em seu meio social.
O debate da maneira e no tom que vem sendo levados em sua maioria é completamente destrutivo pois coloca o dilema de excluir um grupo social inteiro com meios de se inserir de modo positivo em cada cultura ou a destruição de um modelo familiar que é base para o própio desenvolvimento saudável da humanidade !
As duas opções são negativas.

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